Tuesday, July 05, 2005

EDIÇÃO ESPECIAL: CRISE NO PLANALTO

Editorial
O ventilador está ligado
A caça às bruxas promovida pela imprensa sensacionalista, representante da alta burguesia brasileira que possui ojeriza ao PT (mesmo que esse se adeqüe cada vez mais ao status quo da sociedade capitalista), levada a cabo por conta das denúncias de corrupção do ex-presidente do PTB, Roberto Jefferson, de que deputados recebiam dinheiro para apoiar o governo petista, obrigam a direcionar a reflexão para a política de alianças exercida pelo Partido dos Trabalhadores no governo federal.
O próprio presidente Lula cansou de afirmar que seu governo seria de coalizão, ou seja, seu mandato presidencial seria realizado com o apoio de todos os partidos possíveis, mantendo, inclusive, um diálogo com aqueles que fossem para a oposição, casos do PFL e PSDB. Nada mais aparentemente brilhante do ponto de vista democrático, em que várias tendências de pensamento e prática política tivessem espaço para discutir e propor projetos para o Brasil, escolhidos através de conversas e votações no Congresso Nacional. Mas, como todos sabem, na prática a realidade é outra.
O PT atirou para tanto lado que acabou acertando o próprio pé. Ao se aliar com partidos fisiológicos como o PMDB, PTB, e outros sem compromisso nenhum com a democracia, e sim com a manutenção de seus interesses, como o PL e o PP, o antigo partido representante da classe trabalhadora mostrou que sua obsessão por chegar ao Planalto levou-o a ceder em aspectos que não poderia, comprometendo toda a sua história e seu programa que, nem de longe, hoje se assemelha com sua proposta de 20 anos atrás.
A política de alianças é muito comum dentro do sistema democrático-burguês de governo, em que a democracia representativa é a única forma de tocar um País, em que o povo não se mobiliza para participar diretamente de seus rumos.
Só que, ao se aliar a muitas matrizes ideológicas diferentes, trazendo personagens da ditadura militar, como o ACM e parte da ala do PP, e outros que se utilizam do fisiologismo e da barganha como sua forma de vida, o governo não consegue administrar, prejudicando, também, o andamento de seus projetos que constam no programa de governo e foram, inclusive, promessas de campanha nas eleições de 2002. O Fome Zero, os 10 milhões de empregos e o fim da política econômica do FHC que o digam.
A crise política vivida pelo governo petista deveria servir para fazê-los repensar o “modo petista de governar”, colocando em prática tudo que é dito em discursos e bravatas pelo partido, mas que, no cotidiano, é tudo jogado para debaixo do tapete e devolvido como retórica, para o delírio da oposição. Seria momento agora do PT mostrar realmente a que veio, fazendo uma limpeza real do que o ventilador espirrou até agora no gabinete presidencial, e sair dessa paralisia em que se meteu ao se comprometer tanto com as oligarquias desse País.
Artigo
Jornalismo Canalha
Thiago Vieira
Nunca foi tão descarada a falta de ética e a promiscuidade dos meios de comunicação, quanto a este momento de crise política no País. Pela primeira vez, a imprensa brasileira mostrou a verdadeira cara, assim como seu poderio. Deu-se crédito a quem não o tem, deu-se ouvidos a murmúrios e a especulações, forçaram-se situações econômicas, desenterraram-se assuntos que foram dados como irrelevantes e transformaram-nos em armas contra seus inimigos.
A imprensa de um modo geral nunca deixou de estar apenas ao lado de seus próprios interesses. Quando quis, deu posse a governantes que nunca deveriam ter chego a seus cargos, e da mesma maneira tirou do poder os mesmos homens que elegeu no exato momento em que esses deixaram de cumprir suas promessa. O problema é que a imprensa não está do lado da população.
Todo meio de comunicação tem um proprietário. Por conta dos anos de alta da mídia no Brasil, anos atrás, estes donos da informação - que já eram ricos - tornaram-se ainda mais ricos e os mesmos criaram raízes numa classe conhecida há séculos como burguesia. O que afeta esta classe afeta os empresários de comunicação.
Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou de atender aos anseios da imprensa brasileira, mantendo os juros altos e dificultando a captação de financiamentos e afastando investimentos externos, sem contar que isso acarretou aos principais anunciantes uma queda de caixa para publicidade - que é de onde vem o dinheiro para a manutenção dos meios de comunicação -, esta mesma imprensa passou a procurar meios para desgastar a imagem do governo petista, antes mesmo que surgissem qualquer denúncia grave.
Especulou-se muito sobre tudo o que foi possível, as matérias dos jornais impressos e revistas - as emissoras de televisão e rádio, por incrível que pareça não acompanhou -, passaram a ter cunhos muito mais ideológicos que fatuais, ou seja, ao invés de noticiar o que acontece ou mesmo analisar as ações do governo, o que se fez sempre foi uma análise da ideologia do PT sobre as medidas tomadas pelo governo. Na verdade - contrariando as matérias - quem confundiu o Governo Federal com Governo do Partido dos Trabalhadores foi a imprensa.
Já que com as próprias pernas era impossível se chegar a tal objetivo - de macular a imagem do governo - utilizou-se agentes que têm todo o interesse em desbancar o PT e o Lula para as próximas eleições: a oposição, agora, formada pelos partidos que sempre estiveram na situação, PSDB e PFL, que estão por traz do que se pode chamar de golpe branco, uma tomada de poder nas urnas, mas com táticas de levante militar.
Sendo assim, uniu-se a fome e a vontade de comer. É certo que o PT nunca soube ser oposição, e mostra também não saber ser situação. Nuca soube chamar a mídia ao seu lado - a não ser quando o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso também irritou os empresários de mídia, e esta apoiou abertamente a candidatura petista. Porém, justiça seja feita, enquanto era oposição, a imprensa também nunca quis dar ouvidos ao PT e o deixava à margem dos fatos, dando ao partido a imagem de grande baderneiro nas sessões da Câmara dos Deputados e no Senado.
Mas, dado o retrospecto da relação entre imprensa e PT, é possível identificar onde estão os erros cometidos pelos meios de comunicação que favoreceram o golpe branco dos tucanos e a crise política brasileira.
O primeiro erro foi da Folha de S.Paulo, que noticiou as primeiras denúncias de corrupção no governo petista. Antes de chegar à esfera Federal, a Folha já transformava as ações da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, em grandes tragédias humanas, como pudemos acompanhar durante o último ano da gestão no maior município do País. O jornal O Estado de S. Paulo, também não ficou atrás, aliás foi o veículo que iniciou as matérias desvirtuadas.
A gana de fazer com que o governante não alinhado aos seus objetivos é tão grande que personagens até pouco tempo dados como péssimas fontes de informação, por causa justamente de sua baixa credibilidade começaram a Ter muito crédito na imprensa em geral. O deputado federal Roberto Jefferson (PTB) é uma dessas fontes nada confiáveis, sempre envolvido em confusões, barracos e historicamente em meio às falcatruas parlamentares. Foi Jefferson o maior defensor do ex-presidente Fernando Collor de Melo, lembra-se dele?
Pois é. O fato de Jefferson ser o indicado como cabeça das operações corruptas nos Correios, não lhe garante crédito para que passe de acusado para inquisidor, como aconteceu a partir de seu depoimento ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, no início de junho deste ano. A Folha deu a primeira grande matéria sobre as denúncias do pagamento de um tal “mensalão” aos parlamentares que votassem a favor do governo. Com o histórico de Jefferson, uma matéria como aquela, sem que houvesse algum interesse por trás, jamais teria sido publicada, justamente por causa da credibilidade da única e principal fonte.
Claro que o PT teve todos os seus tropeços e, seu presidente, José Genoino, foi uma verdadeira puta sem vergonha ao se negar a combater com veemência as denúncias e conduzir a apuração de forma clara e consistente.
Porém, a imprensa - ainda que o PT tivesse feito a lição de casa - não daria ouvidos, como não deu. Dias após o depoimento de Jefferson no Conselho da Câmara dos Deputados, O Estado de S. Paulo fez o que nunca se esperou de um veículo com tamanha tradição, ainda que seja declaradamente burguês: publicou uma matéria obviamente - nas entrelinhas - guardada durante a campanha eleitoral para a Prefeitura de São Paulo, denunciando a compra, pelo PT - ou tentativa pelo menos - de comprar o apoio do PPS – um dos nanicos sem poderio real nas decisões do País.
A história seria a mesma do tal “mensalão”, o pagamento de milhões por ajuda na campanha e nas decisões da Câmara Municipal.
Porém, a matéria é pouco elucidativa. Traz fontes duvidosas, como “alguém ligado à Direção do partido” - eu não conheço ninguém com um nome desses e muito menos uma mãe capaz de dar esse nome a um filho. Tudo bem que, o jornalismo tem o direito de preservar suas fontes, até para que seja possível recorrer a elas no futuro. Mas uma denúncia dessas, dada assim “no embalo” da crise no país, não é forçar demais?
E quando Marta foi considerada inelegível por três anos - uma punição muito branda por sinal, pois lhe garante a possibilidade de participar das eleições municipais em 2008 - será que o assunto merecia tanta visibilidade, como foi lhe dada? Afinal, Marta também atrapalhou a vida dos empresários.
A institucionalização de subprefeituras fez com que a verba de cada distrito da cidade permanecesse onde foi gerado. Com isso, os bairros da burguesia - que pouco recolhem em impostos para a municipalidade - passaram a ter verbas cada vez menores para que suas pracinhas - pequenos recantos de cooper - ficassem cada vez mais arborizadas e floridas, enquanto bairros como Ermelino Matarazo e Guaianases - zona leste - passavam a se garantir nas melhorias de ruas e outros serviços por conta do aumento de verbas, que sempre foi deles, mas que a divisão igualitária das administrações regionais fazia com que o dinheiro nunca fosse o suficiente.
Quem me desculpe o autor do livro Jornalismo Canalha - José Arbex Filho - por plagiar o título em meu artigo, mas será que as palavras já não se tornaram jargões públicos. Afinal se continuar desse jeito, nesse jornalismo panfletário, teremos os grandes jornais e revistas do País como candidatos a cargos públicos, mensalões e quem sabe até controladores dos Correios.
Artigo
O que a esquerda quer?
Rodrigo Herrero

A cada reviravolta no cenário político brasileiro a respeito da crise que se instalou no governo Lula, após as denúncias do presidente do PTB, Roberto Jefferson, a esquerda brasileira mostra sua verdadeira face. Quando se acreditava que agora os movimentos sociais iriam se mobilizar contra o governo do PT e contra a corrupção institucionalizada (inerente aos governos capitalistas, sejam eles de esquerda ou de direita), o que se vê é uma capitulação ridícula que dá nojo ao mais fervoroso socialista ou simpatizante a temáticas colocadas como progressistas.
Exemplo claro é o número 120 do ano 3 do semanal Brasil de Fato, um verdadeiro bunker dos movimentos sociais brasileiros, que sempre criticou a política econômica do governo Lula, bem como sua política de alianças (que estupra toda uma história independente do ex-partido dos trabalhadores, agora dos banqueiros e burocratas social-democratas), se vê numa bela encruzilhada: não sabe se morde ou se assopra as atitudes desorientadas do atual governo perante as denúncias de corrupção e a grave crise política que o País atravessa.
O texto do caderno de Política, “Um dilúvio de denúncias sem provas”, é na verdade um panfleto que tenta se basear na opinião de dois renomados pensadores brasileiros (o sociólogo Francisco de Oliveira e o filósofo Roberto Romano) para colocar o pensamento de viúva do partido referência da esquerda brasileira nos últimos 20 anos, como é possível constatar em trecho copiado de forma literal ao que consta na página 5 do jornal.
“As denúncias de Jefferson causaram um furor na imprensa e na sociedade brasileira. A fumaça é tanta e tão bem orquestrada que dá impressão de que não há diferença entre o PT e os outros partidos. O imenso patrimônio construído pelo hoje partido governista vai se perdendo, reforçando a opinião de que política não presta”, escreve o jornalista Luís Brasilino.
Um comentário a respeito do parágrafo acima se faz necessário para explicar que: apesar do caráter correto em ficar com o pé atrás diante às acusações de um ex-tropa de choque de Collor, muito do que o jornalista diz a respeito do “patrimônio construído pelo hoje partido governista” se deteriorou ao longo de muitos anos e não somente após sua entrada no governo. As bases do partido, bem como sua base social - ou seja, os operários - deixaram de ser representados pelo grupo dirigente, que, inclusive, afastou seus militantes, dificultando cada vez mais uma participação democrática de todas as alas do partido. Não é a toa que existe hoje o PSTU, o PCO e agora o P-Sol, todos dissidentes do PT, um dos partidos com história de esquerda que mais foi fiel a política antidemocrática do PCUS da época estalinista.
Claro que ainda há quadros interessantes dentro do PT, mas acontece que os que ainda lá estão sonham com uma possibilidade ridiculamente inexistente: a vitória da esquerda socialista dentro da direção do partido. Essa é uma luta há muito vencida pela cúpula dirigente, representada por Lula, Zé Dirceu, Genoino, Mercadante, isto é, personagens que modificaram o modo de atuar do PT ao longo dos anos, rumando sempre para o apaziguamento, típico da democracia burguesa, pelo menos entre suas alas. Afinal, o PT se incorporou definitivamente na burguesia, como parte importante dos burocratas de Brasília, de São Paulo, do Rio de Janeiro, enfim, daqueles que comandam empresas estatais e a grana que estas geram, uma casta que não abre espaço para operário de verdade, somente os “ex”, como o Luiz Marinho, da CUT, e outros que há tanto capitularam e apoiam tudo que o governo Lula faz.
Outro apelo dos movimentos sociais está na “Carta ao povo brasileiro”, documento assinado por 39 entidades, divulgado integralmente pelo número 121, ano 3, do jornal Brasil de Fato. Lá a batida permanece contra a desestabilização do governo, ao passo que este merece ser criticado e cobrado quanto a uma mudança de política econômica. Mas, afinal, de que lado os movimentos sociais estão? Ou eles assumem de uma vez que estão do lado do Lula e aceitam o que seu governo coloca ou então vão direto para a luta contra o governo e afundam suas trincheiras contra a direita e essa pseudo-esquerda que (des)governa o nosso País. A imagem antiga de Lula ex-operário e do PT ex-esquerda ainda faz verdadeiros estragos no imaginário, tanto popular quanto da esquerda brasileira.
Critica dissidente
Essa perspectiva fica clara na medida que o líder do MST, João Pedro Stédile, vem a público e declara que as denúncias de mensalão são “factóides”, e escancara: “A crise instalada em Brasília é resultado de um movimento golpista que inclui motivações internacionais. Os interesses do capital internacional, representados pelo governo Bush e as transnacionais que atuam no Brasil, estão inquietos com a política externa do governo Lula, independente e de integração regional”. Esta afirmação refere-se a uma suposta solidariedade de Lula ao presidente venezuelano Hugo Chávez, tentando especular sobre um suposto movimento golpista, encabeçado pelo PSDB e pelo PFL, apesar de Stédile “esquecer” que Lula se alinha aos interesses de Washington.
O parágrafo a seguir retirado do site da Conlutas explica bem o real objetivo de tal pensamento, repleto de aparente cegueira perante as denúncias e ao que foi levantado até o momento e que não foi questionado.
“A narrativa da conspiração não foi elaborada para fazer sentido, mas para fornecer um álibi político. A esquerda petista necessita uma teoria capaz de justificar seu alinhamento e apoio a José Dirceu e sonha forjar uma nova aliança para combater Palocci e a política econômica. Seus líderes não acreditam no que dizem. Mas a mensagem só precisa ter credibilidade entre as suas bases militantes. O requisito essencial é rimar as palavras ‘imperialismo’, ‘golpe’, ‘PSDB’ e ‘Palocci’. A rima está feita. Agora, é cantar o refrão”, ironiza o texto.
Podemos verificar outro exemplo no panfleto Opinião Socialista, do PSTU, publicado também no site do partido, em que o texto “CUT, UNE e MST lançam carta em defesa do governo”, de Jeferson Choma, grita contra a adesão da CUT, UNE e MST, ao documento citado anteriormente que critica, mas defende, o governo Lula. As três entidades citadas “repetem as acusações proferidas à exaustão por José Dirceu, de que o governo estaria sob a ameaça de ‘golpe’ ‘patrocinado pelos setores conservadores e antidemocráticos’ do país’”.
Outro ponto do texto ataca de forma coerente: “Na verdade, a carta (...) tenta generalizar uma imensa confusão sobre os ativistas dos movimentos sociais e a população em geral. Apoiados na justa desconfiança em relação a Jefferson (...), essas entidades, mais uma vez, procuram confundir a população e dar uma cobertura de esquerda ao governo. Não dizem, porém, que Roberto Jefferson só existe politicamente graças ao PT. Aliás, se ainda continuou roubando nas estatais foi porque o governo federal deixou. Lula chegou a chamá-lo de parceiro e a dizer que ‘daria um cheque em branco’ ao petebista no auge das denúncias contra ele”.
Já o P-Sol faz o jogo do bate, mas não espanca, isto é, aponta os problemas superficialmente, sem aprofundar o debate a respeito da corrupção, muito menos mostrar de forma clara o que fazer para superar isso. “O P-SOL reafirma que a corrupção disseminada no governo Lula é um subproduto inevitável da opção política feita pela direção do PT e pela cúpula do governo federal”, afirma o texto “Governo e Congresso sob suspeita”, publicado em 08 de junho de 2005 no site do partido, escrito pelos senadores Heloísa Helena e Geraldo Mesquita, e pelos deputados Luciana Genro e Babá.
Já a esquerda do PT marca posição e passo perante situações que contradizem a história do partido. As alas insatisfeitas questionam posições de seus líderes, querem que suspeitos sejam licenciados de seus cargos (como o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e o secretário-geral do partido, Sílvio Pereira), mas aceitam, atenuam, após embates, reuniões, conversas, como em todo e qualquer partido baseado no famoso revolucionário e teórico Lênin. O problema é que as decisões são totalmente impopulares e anti-socialistas, o que revela uma grave incoerência quanto a matriz ideológica de cada membro dirigente do PT.
O que esses movimentos sociais, sindicatos, entidades, organizações e alas de “esquerda” dentro do PT precisam entender (se é que querem) é que a manutenção deste sistema burocrático-democrático só fará permanecer tais desvios de dinheiro e de conduta, o que definha cada vez mais a postura de novidade e de diferença em relação aos partidos burgueses, tão ferrenhamente defendida pela esquerda, mas tão abruptamente desvirtuada pelos seus dirigentes. Agir na raiz, na causa, é algo mais próximo da solução do que mexer na cura da corrupção que é uma conseqüência.
Política
O que está por trás da crise?
Thiago Vieira
Durante a ditadura militar no Brasil existiam duas formas de tomar o poder. Uma era golpe armado - utilizando-se das forças armadas para pressionar para que o presidente renuncie ao cargo - e a outra era o golpe branco.
Este último consistia na formação de uma bancada aliada de grandes e poderosas cabeças da sociedade que usam de sua influência para que o apunhalado se sinta pressionado a abandonar o posto, até porque ninguém de peso está ao seu lado.
Das duas fórmulas, a mais usada realmente foi o golpe branco, e nem é difícil entender por que. O brasileiro nunca foi muito de arrumar um briga na qual ele devesse ir à guerra; ficar de negociatas nefastas e burguesas é bem mais lucrativo.
O general Ernesto Geisel, um dos presidentes militares, chegava a dizer que existia uma espécie de “cartilha”, como se fosse realmente uma fórmula matemática para fazer uma tomada de poder, ou ao menos foi assim que contou ao jornalista Elio Gaspari, em conversas que resultariam nos livros lançados recentemente.
Os passos dessa tal cartilha seriam parecidos com o “b+a=ba” da lendária “Caminho Suave” que fez parte da alfabetização de milhões de brasileiros. 1) inicia-se uma crise - naquela época bastava um descontentamento particular para que isso tivesse embasamento, o que não mudou muita coisa; 2) a partir de uma crise, ou uma insatisfação, inicia-se conversas com diversos líderes - quanto mais e mais poderosos melhor - para apoiar a deposição do presidente; 3) fazer promessas de regalias e verbas, além de atender a interesses pessoais é fundamental para o sucesso da investida; 4) sobra agora, partir para o ataque, com pressões cada vez mais fortes, declarações feitas, exigir a renúncia e pressionar para que se não for tomada essa decisão, as coisas ficariam ainda piores.
Ao que se pode ver as técnicas usadas pelos generais e comandantes do militarismo brasileiro - que nos rendeu anos de repressão e diversas mortes e desaparecimentos - são muito parecidas com as manobras políticas que estão sendo feitas nos corredores do Congresso Nacional, atualmente - em 2005 - quando assistimos aos fatos transmitidos por toda a imprensa da crise política entorno do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os derradeiros e inconfiáveis aliados.
Uma insatisfação existe por parte da oposição, liderada pelo PSDB e PFL, e isso não é novidade nem mesmo para aqueles que se fazem de sonso no PT. Os tucanos nunca engoliram ter perdido o cargo de chefe do Executivo do País para o partido de Lula. Quem está no poder tem mais possibilidades de melhorar a posição social de sua classe, no caso do PSDB e do PFL a burguesia. Não que o PT seja partido do povão, mas entre quem sempre esteve lá e quem está chegando agora, prefiro as “caras novas”.
Mas, além disso, outra coisa incomoda - e muito - aos tucanos e seus parasitas (PSDB e PFL): o governo petista, em seus dois primeiros anos, provou em números ser melhor que os dois primeiros anos do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Essas provas foram publicadas na edição 348 - ano XI - de 29 de junho de 2005 da revista semanal CartaCapital.
Comparando os 100 indicadores de desempenho governamental dos dois primeiros anos de cada um dos presidentes (Lula vs. FHC), o governo Lula bateu FHC em 56 deles, enquanto o representante burguês anotou para si 44 dos índices. Por mais que estes números não possam ser notados com total facilidade pela população. Os indicadores demonstram que o Brasil teve desenvolvimento maior com o PT na presidência, que quando tinha o PSDB.
Isso, aliada às pesquisas de popularidade do presidente Lula - que ainda apontam o suficiente para que vença as eleições em 2006, pois 48% dos entrevistados pelo Ibope em junho, acredita que o País está melhor agora do que no governo tucano - dá certo tremor nas pernas da direita, do PSDB e do PFL, mesmo que o Lula tenha simplesmente jogado no lixo o seu discurso de posse e transformou-se em um braço ainda mais forte daqueles que já são ricos e poderosos. Talvez a oposição pense: “quem sabe numa próxima ele resolve fazer tudo o que pretende realmente?”.
O que pensam eu não sei, mas os motivos para um golpe branco a oposição já os tem. Falta agora apresentar provas de que a oposição já está fazendo isso. Bem, de acordo com o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos - um dos mais reconhecidos acadêmicos da área no País e colunista do jornal Valor Econômico, além de ser o autor da pesquisa que mediu os indicadores governamentais -, em entrevista à CartaCapital, afirmou que o PSDB não pretende o impeachment de Lula, mas também não recuaria se essa possibilidade fosse assim tão fácil.
Para Santos, além dos índices de desenvolvimento governamental, outros dois fatores levaram à crise política no País. Um deles seria o apoio da imprensa, o outro é a visibilidade e capacidade do PSDB e do PFL de serem oposição.
A oposição nunca foi tão forte no País. O PT nunca soube fazer e acontecer como oposição, o PSDB sabe, mas conta ainda com o apoio dos jornais, revistas e da televisão, que nunca deram muitos ouvidos a quem não estava ao lado do governo.
Com isso, o PSDB ganha visibilidade, coloca FHC como principal declarante de suas idéias sobre o que deveria ou não ser feito por Lula. FHC até seria uma boa fonte de informação para esse tipo de coisa, não fosse o fato de ter todo o interesse no que afirma. Assim, a oposição - que ganhou de mão beijada uma crise para iniciar seus planos, com as denúncias provindas de uma pessoa que não merece nenhuma credibilidade - ganha cada vez mais espaço para pressionar o governo ao seu bel prazer.
A partir desta pressão, Lula se mostra cada vez mais fraco e mais atolado nas denúncias e confusões armadas no Congresso Nacional, e o golpe branco vai se tornando cada vez mais e mais real.
É assim que se faz um golpe atualmente. Deprecia-se a imagem de quem está no poder, depois toma o posto nas urnas, sem que se escorra uma gota de sangue, apenas de suor e da dignidade, pois a última coisa que interessa nessa história toda é estar no poder. O povo? Assim como na ditadura militar, é apenas um detalhe.
Política
Denúncias colocam PT na defensiva
Rodrigo Herrero
O Brasil tem sido invadido por uma enxurrada de denúncias de corrupção, compra de cargos administrativos, de votos para aprovação de projetos, de financiamento indevido de campanha, colocando sob cheque diversos políticos e partidos que, mais uma vez, mostram sua vocação profissional para utilizarem o cargo eletivo para se favorecerem e se perpetuarem, seja no Executivo ou no Legislativo.
O ex-presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), deputado Roberto Jefferson, afastado temporariamente, que já foi membro da “tropa de choque” para manter o ex-presidente Fernando Collor de Mello no controle da oligarquia brasileira chamada de República, resolveu colocar as ”manguinhas” de fora e soltou um caminhão de frases feitas, palavras soltas, sem provas, de que o Partido dos Trabalhadores (PT) estaria pagando uma espécie de mesada para deputados da oposição entrarem em partidos da base aliada do governo, em específico, para o Partido Liberal (PL) e o partido Progressista (PP).
O denominado “mensalão” entrou no cenário político nacional para desviar Jefferson do foco das acusações direcionados a ele a respeito de corrupção nos Correios. Após a gravação de recebimento de propina pelo ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material da estatal, Maurício Marinho, em que este declarou trabalhar em conjunto com Jefferson num esquema de favorecimento em licitações e projetos. Enquanto o presidente do PTB procura pontos para barganhar sua defesa na CPI dos Correios, a imprensa se ocupa em trazer fontes sem crédito para dar credibilidade às suas reportagens e deixar a cúpula petista e Lula de cabelo em pé para justificar e desmentir as acusações sem provas.
Reação
A reação dos dirigentes petistas foi imediata e atacou por dois lados: o primeiro foi tentar desvincular as denúncias de uma provável participação do presidente da República (Jefferson mesmo afirmou que Lula era “refém” dessa situação, pois ele não saberia do tal “mensalão”) e, para isso, choveram declarações petistas de que o mal seria “cortado na própria carne” se necessário fosse, numa clara alusão de que petistas também seriam punidos, desde que fossem comprovadas as denúncias. O outro foi rebater a todo o custo as declarações intimidadoras de Jefferson de que o tesoureiro do partido, Delúbio Soares, e o secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, eram peças-chave no esquema.
Parte dos petistas, como a ala mais a esquerda do partido, casos do deputado Ivan Valente e Plínio Arruda Sampaio, um dos fundadores do PT, além do senador Eduardo Suplicy, pediram o afastamento dos dois dirigentes, enquanto as denúncias não fossem apuradas. Suplicy, inclusive, declarou estar “muito triste e decepcionado” com as denúncias envolvendo o partido. "É preciso que se faça tudo para que a verdade venha à tona", disse em entrevista coletiva concedida no último dia 02 de julho, a respeito da confirmação de que o publicitário Marcos Valério, acusado de ser o responsável por sacar o dinheiro do “mensalão” aos deputados, teria sido avalista de um empréstimo feito pelo partido.
Mesmo assim, Soares e Pereira não foram retirados de seus cargos e a choradeira da ala minoritária dentro do PT não resultou em nada, mais uma vez. Entretanto, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, pediu demissão do cargo em virtude das denúncias do esquema de “mensalão”, em que Dirceu seria a pessoa que autorizava os repasses de verbas públicas a deputados que entravam nos partidos da base aliada do governo. A cúpula petista recomendou, então, uma “repactuação interna” para defender os membro do partido.
E o artigo “Compromisso e mudança” escrito pelo presidente do PT, José Genoino, publicado no dia 10 de junho no site do partido, atesta isso: “O compromisso do PT com o combate à corrupção e de defesa da ética na política é inarredável e irrenunciável. Reconhecemos que, em qualquer partido, inclusive no PT, podem existir pessoas desonestas para com a coisa pública. Mas em relação às presentes denúncias, queremos dizer à sociedade, com toda a franqueza e com o respaldo da nossa história, que as acusações que são arremetidas contra o PT e o governo petista são falsas. Por isto, queremos que todas as investigações cheguem até o fim e daremos nossa colaboração para que isto aconteça”.
Estratégia
Com isso, a estratégia adotada foi a do ataque à oposição, acusada de “golpismo branco”, e de querer antecipar as eleições presidenciais de 2006, promovendo a CPI do “mensalão” como um palanque. Exemplo claro foi a declaração de Dirceu, em reunião do PT após sua saída do ministério, em que acusou um possível “complô das elites” para desestabilizar o governo. “Estamos vivendo uma luta de classes. Estão fazendo tudo para nos desestabilizar”, teria dito Dirceu, conforme matéria da Agência Estado. Infundadas ou não, risíveis ou não, tais acusações são detectáveis na medida em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recomendou que Lula desista de ser candidato à reeleição devido à crise vivida hoje. “Lula deveria anunciar que não é mais candidato à reeleição. Deveria escolher projetos importantes e abrir negociação com todos. É o que poderia aliviar a crise e permitir que volte a ser candidato se as coisas andarem bem”, falou FHC à revista Exame da última semana de junho.
Outra saída, pensada no fim do mês passado pelo presidente Lula, foi a de retomar a reforma ministerial, cedendo, desta vez, mais ministérios e cargos de segundo e demais escalões para o PMDB, com o objetivo de contar com o apoio ferrenho deste partido, tanto no andamento do governo até o fim do mandato presidencial, bem como para prorroga-lo nas eleições do ano que vem. Quatro ministérios teriam sido oferecidos por Lula à bancada peemedebista, além de postos-chave em empresas estatais.
Além dos ministérios das Comunicações (Eunício Oliveira) e da Previdência (Romero Jucá), já administrados pelo aliado, as pastas da Minas e Energia, desfalcada pelo deslocamento de Dilma Roussef à Casa Civil, e da Saúde ficariam sob controle total do PMDB. No entanto, é desejo também desse partido disputar a eleição presidencial de 2006 e parte de seus quadros não desejam fazer essa permuta. O presidente foi muito leal comigo quando me disse, semana passada, que queria contar com o PMDB por inteiro. Por isso, vou dizer a ele, também por um dever de lealdade, que isso não será possível. É melhor deixar como está, afirmou o presidente da legenda, Michel Temer, ao Jornal do Brasil. Outro problema estaria também na própria resistência do PT em ceder tantos ministérios, principalmente o da Saúde, para o PMDB. Mesmo assim, as negociações prosseguem e o presidente Lula está confiante, apesar de preocupado, de que irá trazer o PMDB para blindar seu governo.
A guerra está preparada. Enquanto Jefferson é colocado como a Justiça em si, como se fosse o responsável por balancear quem diz a verdade e quem mente, que rouba ou não, sendo que hoje ele se mostra o paladino da corrupção que não quis combater quando tentou proteger Collor, as CPI’s instaladas trazem o clima de paralisia ao País, que mantém todos os seus projetos parados na pauta de votação, pois claro, o que dá ibope hoje em dia senão falar e especular sobre as tais denúncias de corrupção e sobre a crise política no governo do PT, até outro dia apontado como a solução para a ética na política?
Coluna Vertical
Sempre um passo atrás
Thiago Vieira

O PT deu mais uma amostra de sua incapacidade para ser situação, ou pelo menos uma prova de que ainda não está totalmente preparado para estar à frente do País. Somente após diversas denúncias e confusões é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu arregaçar as mangas e tentar mostrar que está atento aos acontecimentos e, também tentando, seguir seus discursos em que prega com veemência o combate à corrupção.
Nos primeiros dias de julho, o presidente e o partido apresentaram à população três medidas para o “combate” à corrupção. Primeiro apresentou um pacote de decretos que dispõem sobre a institucionalização do desvio de verba - qualquer que seja o desvio - como crime previsto em Lei e suas penalidades.
Depois, no domingo dia 3 de julho, a cúpula petista votou a favor do afastamento de Delúbio Soares - o tesoureiro do partido acusado de ser um dos personagens principais do pagamento de “mensalão” aos parlamentares que votassem ao lado do governo e a favor de seus projetos.
No dia seguinte à votação, segunda-feira, Lula arregaçou mais uma vez as mangas e tomou para si a responsabilidade da coordenação do Partido dos Trabalhadores, deflagrando uma mobilização para o também afastamento do presidente do PT, José Genoino.
O pacote anticorrupção, na verdade, não passa de uma reinvenção da Lei do Colarinho Branco, só que um pouco mais específica e que espera-se tenha mais atuação que a criada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Neste pacote, estão integradas cinco medidas na esfera federal: 1) projeto de lei que estabelece o Sistema de Corregedoria do Poder Executivo Federal, em que cria uma corregedoria para cada ministério; 2) o decreto que institui as sindicâncias patrimoniais, com o objetivo de apurar casos de enriquecimento ilícito de funcionários do alto escalão; 3) o projeto de lei que torna crime o enriquecimento ilícito; 4) o decreto que formaliza o Portal da Transparência do Governo Federal, que já funciona experimentalmente desde o fim de 2004; 5) e o decreto que obriga todos os órgãos federais a divulgar, na internet, o relatório da auditoria anual realizada pela Corregedoria Geral da União (CGU), bem como uma página com todos os contratos, licitações e gastos de cada ministério.

Como diria Jack, o estripador, vamos por partes.
A primeira medida, realmente, é nova e talvez traga algumas mudanças no “fazer política” no Governo Federal. Isso porque cria um sistema de fiscalização sobre o Poder Executivo, livre de qualquer pressão - ou pelo menos é isso o que está previsto. Ao se ter uma corregedoria a parte do processo de trabalho, passa a se ter um mecanismo de observação dos trabalhos, como se fossem câmeras de monitoramento de uma loja de conveniências: pôs o produto (dinheiro) no bolso é “cana”.
Já a segunda é uma medida paliativa, que nada muda e pode gerar confusões ainda maiores. Quando se faz sindicâncias patrimoniais para procurar indícios de enriquecimento ilícito, estas apurações muitas vezes não levam em consideração o fato de que alguns bens, com o passar do tempo tornam-se mais valiosos. Por exemplo, O Estado de S.Paulo, em sua fúria para provar que o deputado federal Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, recebia o tal “mensalão”, publicou um matéria completamente errônea que afirmava o enriquecimento ilícito do parlamentar através de seu patrimônio apresentado ao Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP). O repórter e seus editores cometeram um erro primário para a editoria de Política, esqueceram que os bens de Costa Neto, há alguns anos, foram reavaliados por uma empresa especializada. Daí, é óbvio que o deputado passou a ser considerado mais rico - seus bens valem mais hoje, que na época de aquisição, sabe-se lá quando.
Por isso é preciso tomar muito cuidado, pois o próprio apartamento em São Paulo, do presidente Lula, hoje vale pelo menos o dobro do que à época em que se mudou com a família para lá. Fiscalizar sim, destruir a vida e a imagem de uma pessoa não.
A terceira medida é a que mais representa o dito popular “nada se cria tudo se renova”. Ela torna crime o enriquecimento ilícito. Se não era crime, até então, porque outros parlamentares e políticos, assim como advogados e empresários foram presos e tiveram direitos políticos cassados no passado?
A quarta medida é interessante, porém falha. Ela institucionaliza um portal na internet que permite acesso a todos os contratos e licitações realizadas pela União e seus Ministérios. Lindo. Não fosse por um único problema, quantas pessoas no Brasil têm acesso à internet? Apesar de todo o trabalho que vem sendo desenvolvido de inclusão digital – ainda que manco – a maioria da população ainda é incapaz de navegar na rede e compreender o que está escrito. Além disso, é necessário ter uma base de conhecimento para interpretar documentos licitatórios e contratos públicos.
Imaginem alguém ler no site que a obra tal foi licitada para tantos mil reais, e ao fim dos trabalhos a mesma coisa custou realmente mais do que o licitado. Seria motivo para dizer que houve superfaturamento. Nada disso. Toda licitação tem um limite percentual sobre o que está orçado para mais, caso seja necessário mais dinheiro e com isso evitando que os serviços cessem por falta de verbas.
Por fim, porém, não menos redundante. A quinta medida é literalmente o que meu avô dizia ser “chover no molhado”, porque institui que todos os ministérios e setores governamentais publiquem seus contratos, licitações, folhas de pagamentos etc., etc., etc.
Voltamos à mesma questão da quarta medida. O acesso, bem como o entendimento dos documentos colocados à disposição não vai atingir ao objetivo do governo, de ser transparente e ser fiscalizado por toda a população. Transparente pode até ser, mas são poucas as pessoas que conseguirão olhar através dele.
Com isso o acesso fica restrito, ao Judiciário - onde está a grande máfia dos poderes - aos assessores de parlamentares, e mesmo só aqueles que provêm da época em que para ser assessor era preciso ser mais que parente de alguém importante, e a pouquíssimos jornalistas, também da época em que para ser jornalista político também era preciso mais que saber fazer perguntas.

Se continuar assim, nem colarinho branco nem combate à corrupção, o que teremos é uma roubalheira, agora mais do que escancarada.
Coluna Verborrágica
Ataque aos Correios
Rodrigo Herrero

Um tema que tem sido deixado de lado de forma obscura pelos meios de comunicação burgueses e que diz respeito a toda a sociedade é a discussão no âmbito do Judiciário a respeito da privatização dos Correios.

Enquanto a cobertura a respeito da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ganha espaço amplo em todos os jornais, com denúncias e mais denúncias (quase nenhuma sem provas, fundamentadas em palavras de pessoas que não deveriam receber tanto crédito), corre uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF), promovida pela Associação Brasileira das Empresas de Distribuição (Abraed), que pretende derrubar a inconstitucionalidade da lei 6.538/78, que garante a exclusividade de entrega de correspondência pelos Correios.

O Ministério Público Federal (MPF) já emitiu parecer em que classifica o serviço postal como de natureza pública, cujo controle exclusivo no País cabe à União. No entanto, no primeiro dia da votação da matéria no STF (ocorrido em 15/06) houve divergência entre o relator, o ministro Marco Aurélio de Mello, que votou a favor da quebra do monopólio, e o ministro Eros Grau, que votou pela sua manutenção.

O primeiro considerou que o fato de preservar o interesse público não representa necessariamente que o Estado faz parte disso. “O que a experiência vem demonstrando é que, em muitos casos, mais se atende ao interesse social quando o Estado se retira da prestação direta e passa a atuar de outra maneira, como ente capaz de regular, fiscalizar e impor sanções, e liberta a atividade econômica para seus verdadeiros titulares, a iniciativa privada”, afirmou na argumentação de seu voto.

Já Eros Grau julgou improcedente a ação por crer que “o serviço postal é um serviço público por definição constitucional”. Ele alega que a sustentação da Abraed (de que os serviços postais possuem natureza econômica e não podem ser realizados em forma de monopólio) é errônea, porque “o serviço postal não é uma atividade econômica a ser explorada por empresa privada. Por isso toda a argumentação em torno da livre iniciativa e da livre concorrência acaba caindo no vazio, perde o sentido”.
População perde
Segundo o secretário de Administração e Finanças da Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios (Fentect), Roberto Prado, a quebra do monopólio estatal dos Correios prejudicaria a população, pois a iniciativa privada passaria atuar somente nos setores que indicam maior lucro a ser conquistado, ou seja, nos grandes centros metropolitanos.
Prado destaca que o fim do monopólio postal abriria caminho para que empresas privadas nacionais e estrangeiras atuassem no setor. "Seria uma privatização dos Correios, com uma privatização geral do mercado postal brasileiro", ressaltou. Hoje a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) emprega 109 mil pessoas, sendo a maior empregadora em respeito à Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) do País.
Nada é ao sabor do acaso
Com tudo isso colocado, não é a toa que a CPI que investiga os Correios foi instalada e não é ao sabor do acaso que as denúncias afloraram assim, meio que “de repente”. Grandes empresas nacionais e transnacionais (como a Fedex e a DHL) estão de olho nesse mercado que gira uma grana violenta e, para isso, colocam a laranja da Abraed para questionar que o monopólio viola a “livre iniciativa” e a “livre concorrência”. Até aí, dane-se o interesse social quanto ao envio de correspondências da população.

Para se ter uma idéia, dados de 2003 do relatório administrativo da instituição revelam que sua receita alcançou o total de R$ 6,5 bilhões, com um lucro líquido de R$ 288 milhões e uma receita operacional que encerrou o ano em R$ 5,9 bilhões. Naquele ano, a empresa registrou tráfego global de 8,3 bilhões de objetos e correspondências, com índices de eficiência próximos a 100%.

Os Correios cresceram tanto nos últimos anos que se mostraram um empreendimento estatal que deu certo - como a Vale do Rio Doce e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que nunca deram prejuízo e foram privatizadas (quase dadas) para o capital estrangeiro.
Tanto que, segundo pesquisa feita em 2004 pela Universidade de São Paulo (USP) diz que, para os brasileiros, os Correios são a instituição mais confiável do País, na frente, inclusive, da família, do Corpo de Bombeiros e da Igreja. Isso mostra o real objetivo das denúncias de corrupção da CPI: golpear a confiança na empresa e generalizá-la a tal ponto que a sociedade não enxergue outra opção que não a privatização.
As denúncias devem ser apuradas sim, mas que mostrem para a população que o governo é sério, não tolera corrupção e não foge da punição a quem quer que seja. Afinal, a corrupção não é privilégio do Estado, ou então as empresas, por serem privadas, não estão sujeitas a falcatruas e desfalques, conchavos, que são (ou deveriam ser) investigados e também punidos? A diferença é que, para preservar a condição capitalista da privacidade, não deve haver interesse público nisso.
Mas, por outro lado, crucificam a instituição estatal, na verdade, não pela corrupção ou problemas que podem existir (e é natural que existam, afinal, o capitalismo proporciona o delito), mas pelo simples fato que ela é estatal, e, portanto, não gera lucro direto a nenhuma empresa.
Com Agência Brasil e Diário Vermelho
Ponto de Vista
O Paradoxo da Corrupção
João Paulo Cunha*

O Brasil parece viver, hoje, sob o jugo de um esquisito paradoxo. O índice de corrupção aumentou e, por isso, há tantas notícias de prisão de corruptos?; ou há tantas prisões de corruptos, ultimamente, que dá a impressão de que a corrupção aumentou?

Para quem conhece os meandros da administração pública, para quem admira a biografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem sabe quais são os valores republicanos que norteiam a presente gestão no governo federal, não há dificuldade em encontrar a resposta: a liberdade concedida ao Ministério Público Federal é tamanha, as operações da Polícia Federal são conduzidas com tanta independência e responsabilidade e o compromisso de tentar erradicar a corrupção da máquina pública é tão sério nesta administração, que o sucesso das investidas policiais e a seriedade na condução dos inquéritos nos dão a impressão que a corrupção aumentou ou foi inventada nesse governo.

Nada mais enganoso. Quem fala isso, comete um sofisma contra a inteligência dos interlocutores. Na verdade, o noticiário está sendo alimentado justamente pelas ações enérgicas dos órgãos do Governo. Quem segue insistindo nesse falso paradoxo quer, de fato, é entabular uma luta política com fins eleitorais.

Desde janeiro de 2003, quando o presidente Lula assumiu o cargo para o qual foi eleito com a maior votação da história de um político em todos os tempos, em todo o mundo, a Polícia Federal já empreendeu cerca de 70 grandes operações de desmonte de organizações criminosas. Nessas operações, foram presas 1.234 pessoas. Dos presos, 819 eram políticos, empresários, magistrados, policiais ou servidores públicos. Só a título de comparação: nos oito anos em que governou o Brasil, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso colecionou um conjunto de pouco menos de 40 operações da Polícia Federal e não tinha números tão significativos quanto os atuais.

Durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, integrante do PSDB, o Ministério Público Federal foi comandado por um único procurador, Geraldo Brindeiro. Guindado ao posto por um ato presidencial, Brindeiro ganhou o maldoso apelido de “engavetador-geral da República”. É fácil saber o porquê: dos 626 inquéritos que chegaram a seu gabinete, em Brasília, 217 foram arquivados e 242 não prosperaram – ou sejam, permaneceram engavetados. Desses inquéritos que dormiram nas gavetas, 194 tinham deputados federais como réus, 33 se referiam a senadores da República, 11 citavam ministros ou ex-ministros da gestão FHC e quatro deles levantavam suspeitas contra o próprio presidente da República do PSDB. Hoje não é assim.

Cláudio Fontelles, dono de uma das mais vigorosas biografias do Ministério Público Federal, foi o primeiro procurador indicado por Lula – mas jamais se submeteu a tutelas de quem quer que fosse e nem isso foi tentado por alguém. Sábio, republicano, Fontelles poderia ser reconduzido ao cargo no segundo semestre deste ano, quando seu mandato termina, mas já comunicou ao Palácio do Planalto que deseja ver “a fila andar”. Ou seja, abriu mão de uma recondução à Procuradoria-Geral para a vez a um colega que possa ajudar a construir a trajetória vitoriosa e independente da instituição. Fontelles não se furtou, em nenhum momento, a pedir a abertura de inquéritos contra ministros de Estado e mesmo contra o presidente do Banco Central – nem recebeu pedidos para que não o fizesse.

O presidente Lula criou a Controladoria Geral da União e entregou-a ao ex-governador baiano Waldir Pires. Desde então, a CGU já fiscalizou 681 municípios de todo o país, todos escolhidos por sorteios públicos, e realizou seis mil auditorias em órgãos federais. O conjunto desse trabalho resultou no encaminhamento, ao Tribunal de Contas da União, de 2.461 pedidos de abertura de processos de investigação.
São números consistentes e sólidos como esses que mantêm a minha fé no governo do Presidente Lula e no seu projeto de Brasil. O compromisso de quem hoje governa o país é com a apuração de todas as denúncias e com a punição de todos os culpados - com todos problemas e paradoxos que possam haver.
(*) João Paulo Cunha é deputado federal pelo PT-SP e ex-presidente da Câmara dos Deputados.

Ponto de Vista
Corrupção, esquerda e direita
Emir Sader

A direita afirma que, diante da corrupção, direita e esquerda desapareceriam. A polarização seria entre honestos e corruptos. A luta da esquerda contra a corrupção, ao contrário, não abole direita e esquerda. Quem reduz a luta política à luta contra a corrupção é de direita. Ou a esquerda se livra desse tipo de prática ou contribui à alienação do povo.

A direita se deleita em afirmar que, como o PT está envolvido em corrupção, tudo é possível, nada é melhor, tudo é igual. Podem perpetuar suas práticas, porque estariam na natureza da política. Mas principalmente se deleita em afirmar que, diante do supremo crime da corrupção, direita e esquerda desapareceriam. A polarização seria entre honestos e corruptos. Bastaria eliminar os corruptos - ou aqueles pegos em flagrante -, fazer reforma política, tomar algumas medidas contra nomeações dos governos e pronto. O saneamento permitiria que tudo seguisse como antes: os ricos cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais abandonados, os poderosos cada vez com mais poder, os humilhados e ofendidos, sem esperança que não a religião. "A vida para os fortes/ para os fracos a morte: e é bom que seja assim" - como diz o personagem de Brecht.

Collor roubava porque era cleptomaníaco, porque os filhos das oligarquias nordestinas criados em Brasília não respeitam os bens alheios. PC Farias fazia o trabalho sujo, porque sempre foi um mafioso. Já a privataria do governo FHC - a maior roubalheira da história brasileira - foi feita toda dentro da lei - para isso se comprou sistematicamente a maioria do Congresso, tudo dentro da lei, contando com a mídia, porque era por uma "boa causa": a privatização. Parodiando o secretário de Estado dos Estados Unidos: "são corruptos, mas são nossos corruptos". Afinal, o governo Bush definiu, com Posada Carriles, que há "bons e maus terroristas", os "nossos e os deles".

A direita tenta despolitizar a política, tratando a corrupção como uma tentação da natureza humana. O máximo que se poderia fazer seria limitar os riscos, com leis, polícia, controle da imprensa (o terceiro poder que, como diria o Stanislaw, passou rapidamente para segundo). É o que prega o liberalismo, assim como as teorias foucaultianas, para as quais em toda relação humana há poder, dominação, corrupção de caráter.

Para a esquerda, a corrupção significa um crime muito mais grave. Significa apropriação privada de bens públicos. Significa privatização do Estado, desvio de impostos arrecadados da massa da população para mãos privadas. Significa desideologizar a política, estabelecendo-se acordos em base a vantagens materiais. Significa sobretudo desviar recursos que deveriam ser canalizados para afirmar direitos do conjunto da população para vantagens pessoais.

É, portanto, para a esquerda, muito mais do que simplesmente um crime pessoal. É um crime político. E quando é praticado pela esquerda, se torna ainda mais indesculpável, porque a iguala à direita, porque favorece a desqualificação da esquerda, porque desvia as atenções dos maiores problemas do país para um problema de corrupção. E porque se trata de políticos identificados com a esquerda apropriando-se de recursos públicos para objetivos privados.

Um objetivo central da esquerda é a recuperação da política como atividade emancipatória, de construção da polis, da res publica, da esfera pública, dos bens comuns. O socialismo pode ser definido como a socialização dos bens materiais e espirituais, como a reconstrução da sociedade centrada na esfera pública.

Essa luta inclui o resgate da militância política, da militância revolucionária, dessa atividade dedicada e desinteressada, de luta pelos ideais da humanidade, dos trabalhadores, da construção de uma sociedade sem classes e sem Estado, sem exploração, nem discriminação, nem opressão, nem alienação. Da militância como atividade ética, não remunerada, de entrega aos valores de luta pela emancipação de todos, pelos interesses dos mais pobres, dos mais humildes, dos humilhados e ofendidos.

Do resgate da política e da militância como algo totalmente oposto a essa mercantilização da política, das campanhas eleitorais, dos partidos, da mídia. A luta contra a corrupção é também a luta contra a corrupção dos valores da esquerda, rebaixados a um realismo tão rasteiro que já não têm mais nada de esquerda, de luta pela emancipação. Ao contrário, reproduzem e multiplicam a alienação, a opressão, a exploração.

A luta da esquerda contra a corrupção não abole a direita e a esquerda. Ao contrário, recoloca a luta entre direita e esquerda em outro patamar. Quem quer abolir direita e esquerda é de direita. Quem reduz a luta política à luta contra a corrupção é de direita. E quem reproduz a corrupção e a privatização da política não é de esquerda: é de direita.

Ou a esquerda se livra desse tipo de prática e desse tipo de gente ou contribui à alienação do povo e acaba por atentar contra os ideais de emancipação - os que deram origem à esquerda e justificam sua existência, assim como os da militância e da prática política revolucionária.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História".

Thursday, June 16, 2005

Ressuscitando das cinzas

Editorial
HABEMUS ZINE

Duas cabeças pensam melhor do que uma, e produzem ainda mais também. Isso é um fato que a FUCKOFFzine não poderia ignorar. Após anos sendo escrita e idealizada por uma única mente inquieta, ainda que diversos colaboradores tenham passado por aqui - alguns mais outros menos -, passamos a ter dois mentores. Isso não significa que as colaborações estejam descartadas, pelo contrário, continuam sendo de extrema importância para que possamos manter a essência deste fanzine: ser um canal aberto a todas as opiniões.

Uma das mentes é bem conhecida dos leitores da FUCKOFFzine, que completa seis anos em 2005 e passou por diversas fases. A outra alguns já tiveram a oportunidade de conhecer o emaranhado de suas idéias, e passarão a explorar ainda mais a partir de agora, com uma participação mais efetiva.

A primeira fase deste fanzine, logo na sua criação, tinha pretensões infantis de esfregar na cara de todos um radicalismo natural dos anos de conflitos e inquietude da adolescência. Com o passar do tempo essa característica transformou-se em ópio, levando à necessidade de uma abrangência maior, porém, não menos infantil. Criou-se a Catarse Descontrolada, uma fusão com a Manicômio Zine, que infelizmente, a mesma infantilidade e a preguiça fizeram com que apenas uma edição - ainda que uma das mais ácidas - daquilo que prometia ser uma hecatombe de fortes opiniões.

Depois, por problemas internos, a fusão foi desfeita, e voltou a ser ela mesma, contrariando a moda lançada pelas marcas de cerveja. A FUCKOFFzine nasceu agressiva, desafiadora, enfiando o dedo na cara de uma sociedade decadente e corrupta. Da mesma forma ela renasceu todas as vezes, sempre com a mesma pretensão ácida de opinar sobre todos os aspectos do mundo em que vivemos. Agora não poderia ser diferente em nada.

A Fênix da internet retoma suas atividades, com uma cara mais séria, linguagem um tanto refinada, características mais jornalísticas, sendo explorado o que há de melhor no jornalismo: opinião e transparência de idéias. Mas não apenas o "achismo", muito comum por aí, mas a informação em contraponto à todas as suas nuances. Nossa posição é clara, o errado leva pau, o certo ganha aplausos.

Apenas algumas coisas terão mudanças nessa nova fase. A primeira é a periodicidade, que passará a ser mensal - e dessa vez é sério mesmo -, e a qualidade está garantida. Esta medida foi tomada para que os dois assinantes desta possam ter tempo de conciliar seus diversos afazeres. A segunda é a fixação de algumas editorias, como política e cultura, artigos e colunas. Uma definição básica de todo meio de comunicação, que facilita a leitura e a compreensão de nossa hierarquização de idéias.

Como tem sido nos últimos anos, nada passará pelos olhos da FUCKOFFzine sem que receba algum comentário, ainda que ínfimo. Nem papas, nem políticos. Nem teatro, nem cinema. Ou sequer aquele papel jogado ao chão disfarçadamente. Tudo terá seu espaço, doa a quem doer.

Artigo
Uma verdadeira alternativa para o povo latino-americano

Rodrigo Herrero

Surge uma nova proposta de integração da América Latina, em oposição à submissão proposta pela Área de Livre Comércio das Américas (Alca), dos Estados Unidos. No final de abril, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, esteve em Cuba para firmar com o presidente cubano, Fidel Castro, 49 acordos de cooperação que marcam o início da implantação da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba).

O objetivo da Alba é ampliar a integração proposta pela Alca, fazendo com que os acordos não se limitem à área econômica, passando também a questões sociais e culturais, levando em consideração a solidariedade e o respeito à soberania das nações. Entre os acordos estabelecidos na reunião em Havana, estão a instalação de uma sede da PDVSA (empresa petroleira venezuelana) e do Banco Industrial da Venezuela, na capital cubana. É a primeira vez que um banco com capital inteiramente estrangeiro se instala na ilha. Em contrapartida, um banco de Cuba será criado na Venezuela.

O governo cubano também vai aumentar seu apoio à educação popular, com o objetivo de derrubar a zero o número de analfabetos na Venezuela, assim como é em Cuba. Na saúde, 30 mil médicos venezuelanos serão formados em Cuba, além deste governo prometer realizar 20 mil cirurgias em venezuelanos de baixa renda. Há acordos também nas áreas de transporte, desenvolvimento tecnológico, turismo, meio ambiente, produção agrícola, além da criação da TV Sul, uma rede continental de televisão.

Fim da Alca

Essas propostas, por si só, já excluem os EUA, que vêem a Alca ir para o vinagre a cada dia que passa, pois os movimentos sociais das Américas fazem a resistência necessária para impedir que esse mega-acordo saia do papel. Inclusive, janeiro deste ano a Alca era para estar em funcionamento, mas a pressão interna dos trabalhadores impediu esse disparate. Para contornar isso, os EUA têm buscado uma alternativa para explorar os mercados latinos, por meio dos Tratados de Livre Comércio (TLCs) Andino, da América Central e do Caribe, que são acordos bilaterais, em que os EUA negociam diretamente com cada país.

Alguns acordos já estão encaminhados, mesmo assim, há países que não conseguem ceder às pressões estadunidenses, pois a oposição em seu terreno os coloca numa saia justa de lascar. Claro, um acordo meramente comercial, em que um país pequeno e de economia frágil, como o Panamá, por exemplo, vai se beneficiar em quê em relação a uma potência como os EUA? Somente países como Colômbia, Peru, Chile, que possuem presidentes alinhados e financiados pelo Império aceitam esse tipo de acordo que beneficiam sua classe, deixando os trabalhadores na miséria.

Não é a toa que Washington viu com cautela essa reunião de um país em fase de revolução (Venezuela) e outro com uma revolução consumada há mais de 40 anos (Cuba). Através de seu Departamento de Estado, informou que vai continuar pressionando por sua ¿agenda positiva¿, ao colocar que esta possui um futuro democrático. A retórica estadunidense de que sua fórmula de Estado é democrática e deve ser a única a ser seguida chega a ser revoltante, por querer aviltar a soberania das nações seguindo seus próprios caminhos, optando por acordos solidários e não comerciais, em que os povos são beneficiados e não os empresários.

Resta torcer para que acordos como os de Cuba e Venezuela se proliferem nas Américas e que a Alba seja realmente uma alternativa, tomada pelos demais países que queiram se libertar do capital estrangeiro para ter em suas economias a fortaleza necessária para se tornarem independentes de quem sempre os usurpou.

Política
PV quer presidência em 2006


Thiago Vieira


O Partido Verde quer deixar de lado o estigma de nanico, que apenas acompanha os pesos pesados da política brasileira nas decisões e campanha eleitorais. A intenção, agora, é partir para o que muitos podem considerar ambicioso. Os verdinhos querem a presidência da República, iniciando esta busca já nas próximas eleições, em 2006. Porém, esta idéia parece não ser unanimidade dentro da legenda.

Mas, a proposta de uma candidatura própria no próximo ano, com certeza, será debatida nas reuniões nacionais do partido. Quem apóia essa pretensão não se intimida com os dois nomes pesados que estão no páreo na disputa presidencial: o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que ainda não confirma a candidatura, mas é o único nome tucano com força suficiente em dimensão nacional para a corrida ao cargo de chefe do Executivo do País.

A corrente em prol do PV na disputa direta ao posto mais cobiçado em nossa política é formada basicamente por diretórios municipais do partido, bem mais ambiciosos que a direção nacional. Como é o caso de Mogi das Cruzes (SP).

De acordo com o presidente do diretório municipal de Mogi das Cruzes do PV, Romildo Campello Filho, um dos militantes que irá defender a proposta nas reuniões da legenda, ao lado de seu diretor executivo, Eduardo Camargo Afonso - que também responde pelo posto de subprefeito de Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo -, o partido está crescendo e ganhando posições importantes, principalmente no legislativo, como na Câmara do Deputados, em Brasília e na Assembléia, em São Paulo.

"Temos ainda o prefeito de Leme, Interior do Estado, que assumiu, por conta da saída do titular do cargo, além dos cinco deputados estaduais em São Paulo e quatro deputados federais em Brasília. Este crescimento não pode ser ignorado", afirma Filho.

Para Afonso, o buraco é ainda mais embaixo. "O PV não pode mais ficar à sombra de outros partidos. Na capital paulista, estamos aliados ao PSDB, na esfera federal, não estamos concordando em tudo o que o governo petista vem fazendo. Está na hora de termos uma candidatura própria, para provar que podemos crescer ainda mais", declara.

Essa pretensão de uma candidatura em 2006 ganha mais força especulativa com a recente dissidência do partido na base aliada do governo, em Brasília. Com a desculpa de uma política ambiental deficitária do PT, os verdes comprovam que estão procurando se livrar das amarras do passado e partir para uma vida autônoma na política nacional, e possivelmente uma oposição à qualquer um que faça corpo mole na questão do meio ambiente.

Historicamente, o PV é um nanico que come pelas beiradas, e sabe fazê-lo muito bem. Nunca deixou de ter representantes na Assembléia Legislativa de São Paulo, ou no Congresso Nacional. Seus adeptos são na maioria jovens - parcela da população que mais se mobiliza nas causas ambientais do País e do mundo.

O crescimento do partido como um todo, pode ser comprovado com uma amostra do que ocorre em Mogi das Cruzes. Com 200 filiados, a legenda agrega forças políticas da Cidade, como a terceira colocada nas últimas eleições municipais na disputa pela Prefeitura, Thamara Caroline Strelec, que em maio deixou o PPS para abrigar-se sob as asas verdes do PV. ¿Saí de um partido que acreditava nas questões ambientais, para integrar uma legenda que não só acredita, mas também milita nas mesmas questões¿, diz.

Ela também acredita no crescimento do partido que, numa cidade em que a ala esquerdista tem força ínfima, demonstra sinais de amadurecimento. Ainda este mês, o diretório municipal de Mogi das Cruzes fará um recadastramento de seus filiados. "Só queremos no PV aqueles que realmente atuam no partido", afirma Filho.

Ao PV, um partido simpático a todos, vencer as eleições de 2006 ainda é impossível, assim como alcançar a Prefeitura de São Paulo foi inviável para Marcos Penna, seu candidato em 2004. Mas a iniciativa ajudará o partido a formar nomes fortes para o futuro. Porém, é difícil que o partido caia na banalidade de outras legendas como o PSTU, que se tornou um partido que grita e ninguém ouve, que mostra e ninguém vê. Crescimento planejado e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Cultura
Amadorismo ou incompetência?


Rodrigo Herrero


O teatro amador é uma das formas mais interessantes de expressar a arte. É nele que existe maior liberdade para o texto, para a idéia, pois ainda não foi atingida (o verbo é esse mesmo) por um grande patrocínio que injeta grana, mas retira espaço para a arte cumprir seu papel, seja social ou meramente criativo.

Porém, as pessoas confundem o amadorismo, referindo-se àquele que ama o que faz, com o amadorismo de amadores, de pessoas que fazem de qualquer jeito, que não pensam no resultado final e desejam tirar algum proveito do circo armado, seja em cooptar pessoas a seus interesses ou somente aparecer. Se na vida isso é normal, o que dizer na arte...

Esse segundo sentido eu pude presenciar recentemente numa companhia de teatro, que prefiro não citar o nome para não prejudicar as pessoas boas que devem existir em seu meio. Sou jornalista e colaboro para o site de cultura pop Rabisco. Foi de lá que recebi um release de um "assessor de imprensa" sobre uma peça infantil que re-estreava em São Paulo, depois de "muito sucesso" anos antes. Me empolguei e entrei em contato, para assistir a re-estréia do espetáculo e entrevistar os atores.

Tudo combinado. No dia marcado eu compareci, com um amigo, já que íamos para outro compromisso após o final da apresentação. O horário para o início era às 16h00. Chegamos lá poucos minutos antes do início previsto, o que nos deixou preocupado, fora o barulho intenso de um teste de som que estava sendo feito na rua em frente, para uma festa do Dia do Trabalho. Mas, chegando lá, senti que aquilo era uma verdadeira ¿fria¿. Havia apenas uma senhora com duas crianças, além de uma mulher na bilheteria, um rapaz na porta recolhendo os ingressos, fora algumas pessoas do apoio que corriam de um lado para o outro.

Comecei a estranhar tudo aquilo: cada pessoa que chegava um cumprimento era direcionado pela mulher da bilheteria, evidenciando que o público seria composto somente por familiares e amigos. Os minutos corriam e a apreensão tomou conta, pois nosso outro compromisso era às 18h00 e, mesmo com a peça com previsão de uma hora de duração, já eram 16h30 e não daria tempo de nos deslocarmos até o outro local. Foi quando a mulher da bilheteria informou a todos que a estréia não seria mais realizada naquele dia, passando para a semana seguinte, ocorrendo, em seu lugar, uma espécie de ensaio-geral, pois o barulho vindo de fora estava atrapalhando o acerto do som dentro do teatro.

Mas, oras, todo mundo sabe que todo ano, naquele local, há o festejo mencionado e que, para um evento de tal magnitude, o som seria testado um dia antes. Por que, então, não estrear em outro dia, que pouparia tal fiasco? Além disso, faltou divulgação da peça, pois parecia uma apresentação escolar, que vão prestigiar apenas os parentes das crianças.

O desprezo ao zelo e o conseqüente desrespeito ao público indicam que o grau de amadorismo em certos trabalhos não chega a ser uma mostra positiva daquilo que está sendo feito, pois o amadorismo de quem ama o que desenvolve, faz de tudo para ver sua empreitada funcionar, mesmo que dentro de suas possibilidades. Amadorismo e incompetência são coisas totalmente diferentes.

Coluna Vertical
Não somos todos tão iguais nessas noites...

Thiago Vieira

Recebi, dias atrás, um e-mail de um grande amigo, que se encerrava com a frase "somos todos iguais nessas noites". O desfecho de seu texto nostálgico referia-se àquelas músicas que nos marcaram na juventude e, até hoje, quando as ouvimos na rádio movemos céus e terras para que ninguém tire da maldita estação, sendo que isso só ocorre porque elas nos remetem àqueles tempos em que tudo era "mais fácil".

Em seu texto, titulado como "A minha versão da história", ele me surpreendeu, concordei em alguns pontos, e discordei em outros. Ele narrava nostalgicamente - como já disse - a história de uma turma de amigos da qual ainda considero fazer parte e que, ao passar do tempo, acabou por se dispersar, por motivos diversos - uns muito fortes, outros totalmente banais.

A sua "versão da história" inicia com o primeiro ano do colegial para todos nós, em 1998, e o que me impressionou bastante foram os contrapontos que traça com a realidade fora dessa turma, como a hecatombe da telefonia celular no final dos anos 90, e narra como éramos alheios às mudanças do mundo, da política, etc.
"Éramos românticos". Sim, realmente, éramos muito românticos, com os sentimentos à flor da pele - de forma até acentuada próximo ao nível de sentimentalismo que se encontra nos adolescentes "normais", digo isso porque tínhamos algo de especial, nossa união era até alvo de invejas. Concordei com ele em todos os momentos em que exaltou a proximidade que tínhamos, apesar de morarmos a distâncias consideráveis uns dos outros. Concordei com ele sempre que apontou - subjetivamente - os motivos das seguidas "baixas" que a turma foi sofrendo.

Reservo este parágrafo para colocar a minha parcela de culpa nesta dolorosa separação. Não explicarei e nem citarei meus motivos, porque estes já estão gastos de tanto serem expostos, mas faço - assim como ele - a minha meia-culpa, admitindo que meu erro, uma traição sim, contribuiu bastante para a já desgastada relação que tínhamos em 2003. Uma traição, como já vi muitas nesta mesma turma, mas isso não vem ao caso.
Ainda concordei com ele, quando citou a nossa indiferença ao mundo à nossa volta, numa cegueira branca de alienação, de uma adolescência levada "na gaita" - despreocupada, mas que aprendemos no colégio, a ETE Carlos de Campos, a sermos cidadãos e alguns de nós aprendemos a ser críticos -, ou por mera pretensão de que um rei nasceria de nossa amizade. Ele apontou isso ao mencionar a chegada de uma pessoa da classe operária à presidência do País.

Ele comentou a descoberta, de alguns, dos problemas sociais e como o assistencialismo lhes tem ajudado a colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranqüilamente - como se aquele pequeno ato, repetido de tempos em tempos, fosse o suficiente. Para fazer um apanhando geral do texto desse grande amigo, cheguei a conclusão que ele lamenta as separações, as formações de pequenos grupos - algo natural -, as desavenças, e tudo mais, e senti uma esperança de que tudo aquilo retorne.

Porém, discordo dele em outros pontos, em especial quando cita com tristeza as separações e aborda as desavenças com certa surpresa. Em parte, os rachas que tivemos na turma serviram para que deixássemos a cegueira branca da alienação e passássemos para uma fase de lucidez. Ao sairmos das "trevas", deixamos de representar uma juventude despreocupada, surgiram as discordâncias de ideologia, mas não sabíamos lidar com elas num ambiente em que nunca houvera desavenças sérias.

Os poucos que se tornaram críticos perceberam o tamanho do mundo fora dos membros da turma, e naturalmente procuraram relações exteriores. Mas não percebemos que isso nos faria dividir o tempo entre a turma, as responsabilidades e as outras relações. Isso desgastou algumas relações em nosso grupo - tornou-se comum mágoas banais por escolhas feitas.

Os encontros foram minguando, quando um grupo podia, a reunião era realizada. "Nós avisamos, vieram os que quiseram vir", era uma das frases que mais se ouvia. Essa frieza eu não questiono por mim, pois eu realmente só ia nos encontros que eu queria, mas por outros membros, que por diversas vezes ouvi desabafos sobre as quedas de temperatura na turma.

As brigas, desavenças, confrontos de idéias, e até a mudança de ideais que muitos tiveram. Nada disso seria surpresa se tivéssemos consciência de que existia um mundo fora do colégio, se tivéssemos acordado para a realidade que não víamos nas ruas do Brás, ou se ao menos não tivéssemos nos fechado em nós mesmos, achando que isso seria suficiente para uma amizade eterna.

Ao meu ver, tudo o que ocorreu e ainda ocorre nessa turma tem, teve e terá pontos positivos. Acordamos para uma realidade que não queríamos ver e nos separamos porque não soubemos lidar com as nossas próprias diferenças, e isso aconteceu porque não nos conhecíamos como achávamos. Também vejo com certo pesar ao que os fatos nos levaram, como a impessoalidade da internet e a não comunicação em sua plena era. Mas vejo com bons olhos as mudanças que alguns de nós tivemos, como o crescimento pessoal de cada um, a abertura de novos horizontes.

As mudanças são normais e necessárias, como meu amigo, que quando o conheci era um dos católicos mais fervorosos, com quem até tive algumas discussões sobre religião, e que descobri em seu e-mail que passou a ser ateu em algum ponto de sua vida. Isso deve ter chocado algumas pessoas, mas se eu também não fosse ateu, ele continuaria sendo quem sempre me pareceu ser, um amigo acima de tudo.

Coluna Verborrágica
Que democracia é essa?

Rodrigo Herrero

Dia desses, estava eu na porta da produtora que trabalho, aguardando chegar algum funcionário para abrir o portão da casa e eu iniciar mais um dia de mais-valia relativa (pois a absoluta eu decidi não fazer mais), e, enquanto isso, fiquei a papear com o vigia da rua (já que o bairro é residencial, de classe média-alta, na zona sul de São Paulo), conhecido por todos como Zequinha. Homem de seus 30 e tantos anos, com o sotaque a mostrar sua "nordestinidade". Fala tranqüila, sorriso sempre na face, é um daqueles seres pacatos que só costumamos ver no interior paulista, o tão famoso caipira.

Enquanto fritávamos ao Sol das 8 da manhã, entramos numa conversa que fugiu do habitual cumprimento e futilidades, passando para algo mais sério. Começamos a falar de aluguel, pois uma casa vizinha ao meu trabalho está vazia há 8 meses e eu perguntei a ele porque os donos não a vendiam. Detalhe: o aluguel da casa é R$ 1.400,00. Daí, eu comecei a questionar também porque uma pessoa que se presta a pagar um valor desses não compra duma vez: "Quem tem esse dinheiro para pagar aluguel pode comprar uma casa né?", indagava mansamente Zequinha.

Foi aí que a conversa tomou um rumo interessante: Zequinha falou que para quem é pobre a compra de uma casa é muito mais difícil, pois "para você financiar uma casa na Caixa Econômica é uma democracia danada". Sim, para quem não percebeu ou achou um erro de digitação do colunista, trocando "burocracia" por "democracia", Zequinha falou mesmo a palavra "democracia". Eu comecei a rir, mas não pela suposta ignorância do vigia e sim pela absurda verdade que Zequinha mostrava a mim naquele instante.

O raciocínio é muito óbvio: que "democracia" é essa que exige diversas atribuições para um trabalhador pobre que não tem posses, nem meios de produzir lucro para obtê-las, a não ser seu salário-escravidão que lhe permite apenas comer e pôr no mundo mão-de-obra (seus filhos) para um futuro idêntico ao seu? Que "democracia" é essa que exige que a pessoa tenha tantos anos de trabalho numa mesma empresa, se, com a lógica neoliberal, essas empresas pratiquem hoje uma rotatividade monstro de seus funcionários, tudo para cortar custos de rescisão e Fundo de Garantia? Que "democracia" é essa que, no capítulo 2 da Constituição Federal, a seção Direitos Sociais diz que todo cidadão brasileiro tem direito à moradia, mas em 2000 foi estimado em 6 milhões o déficit habitacional, segundo informações do Fórum Nacional de Reforma Urbana?

É simples, como nos mostra o próprio Zequinha, em seu exemplo de como um amigo conseguiu uma casa própria, pois ele mesmo ainda vive de aluguel: "Ele só comprou porque trabalhou muitos anos numa empresa e o patrão dele praticamente comprou a casa, pois como ele, o dono tem empresa, o financiamento sai mais fácil", disse.

Para Zequinha, a única opção que resta é o CDHU, pois uma conhecida dele está vendendo dois apartamentos em regiões inóspitas da periferia paulistana. "Mas você sabe como é né, CDHU é um pessoal bastante pobre. Mas tem muita gente boa", justifica o vigia com cara desconfiada, esquecendo sua condição paupérrima, como todos os brasileiros costumam fazer, pois eles não enxergam e tem vergonha de enxergar que a miserabilidade está á sua porta. E assim Zequinha seguiu sua ronda pela rua e eu iniciei minha mais-valia relativa.

Ponto de vista

Quem precisa de Veja?

Gilberto Maringoni (*) - Texto publicado em BRASIL DE FATO, em Abril de 2005

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez Frias, está atravessado na garganta da revista Veja. Os motivos são basicamente dois. Um é - chamemos as coisas pelos nomes - ideológico. Veja soma-se ao ódio profundo - pelos nomes, pelos nomes! - classista, racista e político devotado ao mandatário venezuelano pela mídia de seu país, que o sataniza a ponto de concluir tratar-se de um débil mental. A pauta é ditada pela imprensa estadunidense mais conservadora, tendo o Washington Post à frente. Veja acha que Chávez não é democrático. Até aí, é um direito de quem manda na publicação.

Estragou uma capa
Mas o ódio da Veja tem por base um outro elemento mais concreto. Chávez estragou uma capa que deve ter dado muita satisfação à alta direção da empresa da família Civita. Recordemos a chamada de capa do número 1.747, datada de 17 de abril de 2002. A edição fechava na noite de sexta-feira, 12 de abril.

Menos de 20 horas antes, a oposição de Chávez - composta por membros do empresariado, em aliança com o alto comando das forças armadas, setores da burocracia petroleira e a Casa Branca - consumara um golpe que o retirara do palácio de Miraflores, acabando com as instituições democráticas do país. Veja não teve dúvidas. Sapecou na capa a chamada: "A queda do presidente fanfarrão". Na página 45, Veja sentenciava:

"Sua queda foi recebida como boa notícia no mundo: melhorou o índice risco-país da Venezuela, a bolsa de Caracas disparou (alta de 8%) e o preço internacional do petróleo caiu 9%". Todos sabem o resto da história. Quando chegou às bancas, na manhã de domingo, a edição estava para lá de velha. Milhões de venezuelanos nas ruas e uma inédita divisão do Exército abortaram o golpe. A Veja sequer pediu desculpas aos leitores pela barriga, na semana seguinte.

Agora, a Veja volta à carga na edição desta semana, aliás, primorosa no que revela de sua linha editorial. A capa é eloqüente: "Quem precisa de um novo Fidel?" Encimada pela expressão carrancuda do líder venezuelano, a manchete logo emenda: "Com milícias, censura, intervenção em países vizinhos e briga com os EUA, Hugo Chávez está fazendo da Venezuela uma nova Cuba".

Condinha paz e amor
A entrevista das páginas amarelas é com a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice. O tom é todo Condinha paz e amor, como se vê pelo trecho seguinte: "Mesmo quando a missão inclui assuntos mais comezinhos, como as encrencas de Hugo Chávez na Venezuela e as hesitações brasileiras na Alca, Condi tem se saído extraordinariamente bem na Operação Simpatia. (...) Pianista, especialista em relações internacionais e fluente em russo, chegou a reitora de Stanford e, embora negue quase que diariamente, o caminho da Casa Branca é uma possibilidade no horizonte".

Não há encrencas com Hugo Chávez, mas encrencas de Hugo Chaves, de acordo com o olho da entrevista. O pingue-pongue pauta a edição. Mas a grande arte está lá no meio da revista, sob o espirituoso título: "O clone do totalitarismo". Em seis páginas ficamos sabendo, entre outras coisas, o que se segue. Alguns comentários são colocados abaixo de cada trecho.

"Chávez dá dinheiro e apoio político e técnico para movimentos de esquerda latino-americanos". Sequer a CIA consegue levantar uma única evidência de que tal fato esteja ocorrendo. "Venezuela substituiu a União Soviética como patrocinadora do regime castrista em Cuba, fornecendo petróleo e abastecendo o país de bens de consumo industrializados, tudo a preço simbólico ou a fundo perdido".

Não há preço simbólico ou fundo perdido. Há um acordo, firmado em 30 de outubro de 2000, pelo qual a Venezuela fornece a Cuba 53 milhões de barris diários de petróleo - metade do que a Ilha consome - a preços de mercado, com prazo de carência de até 15 anos. Além de pagar, Cuba compensa as condições de financiamento mediante o fornecimento de serviços médicos, educacionais e esportivos, além de remédios, vacina e açúcar. A íntegra do acordo pode ser lida em: http://www.asambleanacional.gov.ve/ns2/leyes.asp?id=175. Seria bom aos elementos responsáveis pelos textos de Veja darem uma lida antes de mentirem aos seus leitores.

"Ele diz a toda hora que os americanos querem mata-lo ou estão prontos para invadir o país. Até agora, de real, o que se viu foi o governo de George W. Bush evitar respostas ás provocações". Até agora o que de real se viu foi o governo Bush patrocinar, entre outras coisas, um golpe de Estado. Uma recomendação aos redatores de Veja: encomendem o recém-lançado livro El código Chávez - decifrando la intervención de los EE. UU. em Venezuela, da advogada estadunidense Eva Golinger (Fondo Editorial Question, 336 páginas). O volume é resultado de uma exaustiva garimpagem em documentos oficiais do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa, obtidos sob o amparo da Lei de Liberdade de Informação (Freedom Infromation Act).

Em suas página, a autora desvenda - com fartas provas e evidências - as relações entre a entidade conhecida por National Endowment for Democracy (NED) e a oposição venezuelana, incluindo fornecimento de dinheiro e uso de chantagem política e estímulo à violência. É ressaltado ali que o embaixador estadunidense, Charles Shapiro, foi o primeiro a se reunir com o líder do golpe de 2002, Pedro Carmona. E, entre muito mais, o livro detalha - com os números de matrícula - as embarcações e aviões dos EUA que entraram em águas territoriais venezuelanas, sem autorização, durante o golpe.

A matéria tem muito mais. É impossível dizer onde está a pior parte. É um panfleto, bem ao gosto do que faz na Venezuela a imprensa local. Como ela, Veja não trafega pelos caminhos do apego à realidade. Sua matéria-prima é a ficção e a lorota pura e simples. É parte do novo coro golpista que se avoluma contra um governo democraticamente eleito, tendo como repetidores outros órgãos da imprensa brasileira.

Que os Civita façam isso, é papel deles. Mais uma vez - chamando as coisas pelo nome - é papel de sua classe social. A matéria é assinada por Diogo Schelp, Ruth Costa e José Eduardo Barella. São contratados e fazem o que o patrão manda. Servir bem para servir sempre, parece ser o lema. Talvez acreditem no que escrevam. Mas não deixa de ser deprimente a existência de gente que tope assinar uma peça totalmente editorializada e anti-jornalística, apenas para manter seus proventos no fim do mês. É certo que a vida anda difícil, mas tem um pessoal que pega pesado.

*Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista da Agência Carta Maior, é autor de A Venezuela que se inventa - poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Fundação Perseu Abramo) e observador, a convite do CNE, no processo do referendo revogatório na Venezuela.